Lua de aniversário

O sol oferece sua aura à lua cheia de março, abertura ao outono

o mar se curva para vê-la e receber seu calor,

chama de amor que se deita,

o profundo das águas espelha o vermelho dourado, pele feita de água e luz

Num instante, ondas verdes, esmeras, esmeraldas da noite

noutro instante, espumas em camadas

formando a cauda branca de um vestido

enfeitam a areia

e retornam, sonoras

Estrelas nas águas, no céu

destacam-se da esvoaçante névoa úmida,

ardência, atmosfera do desejo

cortina de mistério e proteção

Num giro, gesto elíptico da Terra

o sublime instante,

feito de liberdade e amor, eternos,

mostra sua dança vermelho-dourada e verde

Tons que se misturam

na imaginação

A perfeição dos mistérios

é marrom,

cor da pele

que desejo tocar

Tardes II

Da janela,

quando a neblina, em torno da pedra, torna mais visível o contorno das árvores

a bruma branca, fria e úmida, cria um contraste no verde, que, em dias quentes, iguala a paisagem

e as múltiplas árvores parecem um contínuo tecido verde

Quando a neblina esfuma-se entre as árvores, esconde algumas

e expõe, com nitidez e perfeição, o contorno de outras,

na dança, enlace envolvente das cores e das formas

O detalhe oculto se revela nos dias frios e úmidos de introspecção

o que parecia uno é héteros,

por isso, seu poder, espírito, floresta, comunidade das árvores,

caso amoroso da terra e do cosmos

Iemanjá

A alma do mar me chamou,

as profundezas das águas sonoras, magnéticas

atraíram para um caminho sem volta

metamorfose,

transformação rítmica das camadas mais sutis da pele

tecido que dá forma corpórea ao fulgor transbordante de vida

Numa noite de festa, ela me trouxe o amor, em forma de peixe

a alma humana, revirada do avesso,

pela primeira vez, calou-se

e contemplou os sons do universo

sentiu o estrondo da fusão de origem

dançou,

quebradiço, o corpo esqueceu suas carcaças, o peso do passado,

as estruturas perderam-se, inúteis,

sem lugar

experimentou a liberdade

sublime amor,

aura ancestral latejante, cintilante

Esse registro transformou para sempre a memória e o desejo

passos de dança para novos mares, Rio

Mergulho

tanta espera

e chegou o dia mais lindo,

manhã de céu azul,

cristalino, horizonte livre

a luz do sol doura as águas e extrai do fundo suas cores,

aura da criação, deslumbramento,

constelação no mar,

fusão interestelar que abre passagem

lembra a poeira das estrelas

na intensidade profunda e úmida das cores,

no céu, na água, nas árvores

azul e verde,

da camisa xadrez,

lua cheia, de colheitas

transborda de saudade, de amor, de gratidão,

é o coração que me trouxe até aqui,

reminiscência do clarão da origem

corpo paradoxalmente contido, em ebulição interna,

ainda imóvel, espera

que se dissipem os medos,

até que a tradição se quebra

já não pode mais suportar

prestes a explodir,

a música subitamente toca e lembra os dias de festa

os pés se entregam ao coração

e vão

puro desejo,

memória de infância,

coração de criança,

sonho, vida,

gratidão,

liberdade, amor

volúpia

Portais

Os pés

exaustos, seguiam pelo caminho da memória,

tradição

(sem Eros)

Em súbita mudança de direção

o coração, de repente

cria novas imagens

do não vivido

O desejo ganha forma

de fantasia rosa neon

O lusco-fusco

interrompe o contínuo seguro andante

guia-se, em transe

é o corpo na escuta da melodia do cosmos

em passos imemoriais

a erótica do coração

a corda do mundo telúrico

No caminho,

a pedra que presenciou o amor.

Nesse ponto, a memória retorna,

no beco, passagem,

viagem onírica,

um sax em mãos de artista

Jazz

na praça, festa

barraca de flores,

a rosa cor de rosa é a forma dos passos inventados

numa noite improvável, ato irresistível da paixão,

memória do corpo gestual,

sem tradições precedentes

Da janela, o inverno

A pedra e a floresta guardam o canto do amor

No inverno,

o desejo, que atrai terra e raiz,

o gérmen da vida,

emerge

do subterrâneo, profundo, mistério

e mostra sua aura,

luz, inominável, impalpável,

brilho incandescente

que reveste, envolve, enternece

é o amor-luz

Raios visíveis do sol

no céu azul oceano

entranham-se na pedra e na terra úmidas

ardor desejante reflete no céu cores quentes, vermelho e rosa,

por que as nuvens frias se formam das cores quentes?

ebulição interna do corpo terrestre e da alma humana

alquimia sensual

Tardes I

A neblina esconde a pedra

que se recolhe e se entrega

protege-se

dos olhares humanos

Gosta da umidade

estonteante do céu

descida para o encontro,

a bruma branca esconde o centro amoroso

que fecunda,

carícia úmida nutre de cosmos

seus poros minerais

abertos à oferenda desejada

Fusão interior,

em transbordamento,

libera o orvalho declarado da manhã

Instante rosa

fresta, lapso,

manifestação das cores do universo em dança mística,

abertura instantânea dos segredos,

milagres do pôr do sol,

a lua nova mostra brevemente seu fio crescente de luz

e depois se esconde atrás da pedra,

das árvores, do alto,

acima está Vênus, o amor e a beleza,

céu azul de brumas rosas,

azul rosado

refletor da pulsante cintilância de Vênus

solitário,

a noite chega vestida de gala

Vênus cresce

algum mistério desejado,

ainda não revelado,

manifestou-se

“Ventos bons chegando”

Para B.B.

um frescor que invade e revira

alma

limpa

torna o coração leve

livre fluxo do desejo

entrega

sabendo que o desejo ardente do coração não é escolha

é memória ancestral,

cósmica,

que se libera

nessa entrega,

o corpo busca outros guias

a luz das estrelas

amor cósmico que estremece as estruturas

e abre fissuras

a natureza recebe os sonhos da alma humana

a alma humana se abre aos sons originários da natureza

e se rende

em reverência

é o corpo que deseja

corpo desejante

nessa entrega,

o universo se abre em escuta amorosa

as leis falham

a mística da vida acontece

milagre do amor